Ânsia

Há pequenas coisas que atiçam o amor
Que nos dão um grande desejo de amar
Uma enorme ânsia de sofrer...


Amantes

Vem!
Vem comigo
Cansados de Amor
Mergulhemos juntos na noite
no silêncio dos Amantes
Amor Amor Amor
Repete comigo
as palavras que nos dão paz...


®Pôesia do Mundo

A minha foto
Le Vésinet, Yvelines, France
É impossível não se dizer ( no mínimo de letras ) e, ao mesmo tempo, em que não se pode tudo dizer ( no máximo de palavras ). Falar demais: È escancarar detalhes insignificantes da vida doméstica. A minha vida sustenta-se no diário de algumas palavras: Trabalho, Respeito, Ternura, Amizade, Saudades, Amor. PEQUENOS VALORES Viver é acreditar no nascer e no pôr-do-sol É ter esperança de que o amanhã será sempre o melhor É renascer a cada dia É aprender a crescer a cada momento É acreditar no amor É inventar a própria vida... No decorrer desta vida, o prazer, a alegria, a tristeza,a dor, o amor, desfilam em nossa alma e em nosso coração deixando diferentes marcas. São essas marcas combinadas que formam a riqueza da nossa caminhada. Um caminho onde o mais importante não é chegar e sim caminhar. Valorize todos os detalhes, todas as subidas e descidas, as pedras, as curvas, o silêncio, a brisa e as montanhas deste seu caminho, para que você possa dizer de cabeça erguida, no futuro: Cresci Chorei Sorri Caí Levantei Aprendi Amei Fui Amado Perdi Venci Vivi E, principalmente, sou uma pessoa feliz!




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segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Havia uma palavra


Havia uma palavra



Havia
uma palavra
no escuro.

Minúscula.

Ignorada.

Martelava no escuro.

Martelava
no chão da água.

Do fundo do tempo,
martelava, contra o muro.

Uma palavra.

No escuro.

Que me chamava, de Matéria Solar...



Eugénio de Andrade

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Última Canção


Última Canção



Se puderes ainda
ouve-me, rio de cristal, ave
matutina. ouve-me,
luminoso fio tecido pela neve,
esquivo e sempre adiado
aceno do paraíso.

Ouve-me, se puderes ainda.

Devastador desejo,
fulvo animal de alegria.

Se não és alucinação
ou miragem ou quimera, ouve-me
ainda:

 Vem agora
e não na hora da nossa morte
dá-me a beber a própria sede.


Eugénio de Andrade

sábado, 26 de novembro de 2011

Rosa do Mundo


Rosa do Mundo


Rosa.

Rosa do mundo.

Queimada.

Suja de tanta palavra.

Primeiro orvalho sobre o rosto
que foi pétala
a pétala lenço de soluços.


Obscena rosa.

Repartida Amada.

Boca ferida,
sopro de ninguém.

Quase nada.



Eugénio de Andrade

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O Inominável


O Inominável


Nunca
dos nossos lábios aproximaste
o ouvido;

Nunca ao nosso ouvido
encostaste os lábios;
és o silencio,

O duro espesso impenetrável
silêncio sem figura.

Escutamos,
bebemos o silencio.

Nas próprias mãos

E nada nos une
nem sequer sabemos se tens nome.




Eugénio de Andrade

domingo, 7 de novembro de 2010

Lettera amorosa


Lettera amorosa


Lettera amorosa

Respiro o teu corpo:

Sabe a lua-de-água
ao amanhecer.

Sabe a cal molhada
Sabe a luz mordida

Sabe a brisa nua
ao sangue dos rios.

Sabe a rosa louca,
ao cair da noite.

Sabe a pedra amarga.

Sabe à minha boca.



Eugénio de Andrade

Poema XVIII


Poema XVIII



Poema XVIII

Impetuoso,
o teu corpo é como um rio
onde o meu se perde.

Se escuto,
só oiço o teu rumor.

De mim,
nem o sinal mais breve.

Imagem dos gestos que tracei,
irrompe puro e completo.

Por isso,
rio foi o nome que lhe dei.
E nele o céu fica mais perto.



Eugénio de Andrade

Shelley sem anjos e sem pureza


Shelley sem anjos e sem pureza



Shelley sem anjos e sem pureza

Shelley sem anjos e sem pureza,
aqui estou à tua espera nesta praça,
onde não há pombos mansos mas tristeza
e uma fonte por onde a água já não passa.

Das árvores não te falo pois estão nuas;
das casas não vale a pena porque estão
gastas pelo relógio e pelas luas
e pelos olhos de quem espera em vão.

De mim podia falar-te,
mas não sei que dizer-te desta história
de maneira que te pareça natural a minha voz.

Só sei que passo aqui a tarde inteira
tecendo estes versos e a noite que te
há-de trazer e nos há-de de deixar sós de...

As Mãos e os Frutos



Eugénio de Andrade

Os amantes sem dinheiro


Os amantes sem dinheiro



Os amantes sem dinheiro

Tinham o rosto aberto a quem passava.
Tinham lendas e mitos
e frio no coração.

Tinham jardins onde a lua passeava
de mãos dadas com a água
e um anjo de pedra por irmão.

Tinham como toda a gente
o milagre de cada dia
escorrendo pelos telhados;
e olhos de oiro
onde ardiam
os sonhos mais tresmalhados.

Tinham fome e sede como os bichos,
e silêncio
à roda dos seus passos.

Mas a cada gesto que faziam
um pássaro nascia dos seus dedos
e deslumbrado penetrava nos espaços.




Eugénio de Andrade

sábado, 2 de janeiro de 2010

Favoritos


O Pequeno Sismo


Há um pequeno sismo em qualquer parte
ao dizeres o meu nome.

Elevas-me à altura da tua boca
lentamente
para não me desfolhares.

Tremo como se tivera
quinze anos e toda a terra
fosse leve.

Ó indizível primavera.



Eugénio de Andrade

Algumas Reflexões Sobre a Mulher


Algumas Reflexões Sobre a Mulher



Elas são as mães:
rompem do inferno, furam a treva,
arrastando
os seus mantos na poeira das estrelas.

Animais sonâmbulos,
dormem nos rios, na raiz do pão.

Na vulva sombria
é onde fazem o lume:
ali têm casa.

Em segredo, escondem
o latir lancinante dos seus cães.

Nos olhos, o relâmpago
negro do frio.

Longamente bebem
o silencio
nas próprias mãos.

O olhar
desafia as aves:
o seu voo é mais fundo.

Sobre si se debruçam
a escutar
os passos do crepúsculo.

Despem-se ao espelho
para entrarem
nas águas da sombra.

É quando dançam que todos os caminhos
levam ao mar.

São elas que fabricam o mel,
o aroma do luar,
o branco da rosa.

Quando o galo canta
Desprendem-se
para serem orvalho.



Eugénio de Andrade

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

O Silêncio



O Silêncio



Quando a ternura
parece já do seu ofício fatigada,

e o sono, a mais incerta barca,
inda demora,

quando azuis irrompem
os teus olhos

e procuram
nos meus navegação segura,

é que eu te falo das palavras
desamparadas e desertas,

pelo silêncio fascinadas


Eugénio de Andrade

Casa na chuva


Casa na chuva




A chuva,outra vez a chuva sobre as oliveiras.

Não sei por que voltou esta tarde

se minha mãe já se foi embora,

já não vem à varanda para a ver cair,

já não levanta os olhos da costura

para perguntar:
Ouves?

Oiço,mãe,é outra vez a chuva,

a chuva sobre o teu rosto.

de Escrita da Terra




Eugénio de Andrade

Adeus


Adeus




Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,

ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;

como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,

eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.

Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;

Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.

Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,

ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.




Eugénio de Andrade

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Sê tu a palavra


Sê tu a palavra

Sê tu a palavra,
branca rosa brava.


Só o desejo é matinal.


Poupar o coração
é permitir à morte
coroar-se de alegria.


Morre
de ter ousado
na água amar o fogo.


Beber-te a sede e partir
- eu sou de tão longe.


Da chama à espada
o caminho é solitário.


Que me quereis,
se me não dais
o que é tão meu?



Eugénio de Andrade

Devias estar aqui rente aos meus lábios


Devias estar aqui rente aos meus lábios



Devias estar aqui rente aos meus lábios

para dividir contigo esta amargura

dos meus dias partidos um a um

Eu vi a terra limpa no teu rosto,

Só no teu rosto e nunca em mais nenhum



Eugénio de Andrade

Entre os teus lábios


Entre os teus lábios



Entre os teus lábios
é que a loucura acode,
desce à garganta,
invade a água.

No teu peito
é que o pólen do fogo
se junta à nascente,
alastra na sombra.

Nos teus flancos
é que a fonte começa
a ser rio de abelhas,
rumor de tigre.

Da cintura aos joelhos
é que a areia queima,
o sol é secreto,
cego o silêncio.

Deita-te comigo.
Ilumina meus vidros.
Entre lábios e lábios
toda a música é minha.


Eugénio de Andrade

É urgente o amor


É urgente o amor



É urgente o amor.

É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.



Eugénio de Andrade
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