Palavras
O poeta nas montanhas arma a tenda.
Estende os olhos sobre o abismo,
apruma as asas, espera.
O peito entoca o inquieto pássaro.
O vento breve traz as palavras.
Espalhadas na relva,
ele as recolhe, ajunta, separa:
Cada uma com seu sol interior,
sua recôndita lenda,
os matizes à espreita de
propícia luz onde se apurem.
O poeta desentoca o pássaro
e vai bicando as letras,
alinhando-as, brunindo-as,
tecendo ali um colar de sílabas,
aqui um diadema de signos,
uma tiara de imagens - um poema.
O pássaro sobrevoa as montanhas,
ultrapassando-as.
Tem nas vértebras a vertigem do verso,
e vai levando-o para outras paragens:
Praias, planícies, planaltos, vales.
Maria Thereza Noronha



