
Coração sem imagens
Deito fora as imagens,
Sem ti para que me servem
as imagens?
Preciso habituar-me
a substituir-te
pelo vento,
que está em toda a parte
e cuja direcção
é igualmente passageira
e verídica.
Preciso habituar-me ao eco dos teus passos
numa casa deserta,
ao trémulo vigor de todos os teus gestos
invisíveis,
à canção que tu cantas e que mais ninguém ouve
a não ser eu.
Serei feliz sem as imagens.
As imagens não dão
felicidade a ninguém.
Era mais difícil perder-te,
e, no entanto, perdi-te.
Era mais difícil inventar-te,
e eu te inventei.
Posso passar sem as imagens
assim como posso
passar sem ti.
E hei-de ser feliz ainda que
isso não seja ser feliz.
Raul de Carvalho


1 comentário:
É, sem sombra de dúvida, realmente, o poder da mente é indiscutivelmente fantástico. Com ele a gente cria tudo ou, quase tudo, festas, viagens, imagens, até mesmo, o amor. O mais interessante é que, a criação, seja ela qual for, é tão contundente, que a gente jura que é real. "Viva o poder da criação mental!"
Bela postagem. Parabéns!
Abraços,
Furtado.
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