Ânsia

Há pequenas coisas que atiçam o amor
Que nos dão um grande desejo de amar
Uma enorme ânsia de sofrer...


Amantes

Vem!
Vem comigo
Cansados de Amor
Mergulhemos juntos na noite
no silêncio dos Amantes
Amor Amor Amor
Repete comigo
as palavras que nos dão paz...


®Pôesia do Mundo

A minha foto
Le Vésinet, Yvelines, France
É impossível não se dizer ( no mínimo de letras ) e, ao mesmo tempo, em que não se pode tudo dizer ( no máximo de palavras ). Falar demais: È escancarar detalhes insignificantes da vida doméstica. A minha vida sustenta-se no diário de algumas palavras: Trabalho, Respeito, Ternura, Amizade, Saudades, Amor. PEQUENOS VALORES Viver é acreditar no nascer e no pôr-do-sol É ter esperança de que o amanhã será sempre o melhor É renascer a cada dia É aprender a crescer a cada momento É acreditar no amor É inventar a própria vida... No decorrer desta vida, o prazer, a alegria, a tristeza,a dor, o amor, desfilam em nossa alma e em nosso coração deixando diferentes marcas. São essas marcas combinadas que formam a riqueza da nossa caminhada. Um caminho onde o mais importante não é chegar e sim caminhar. Valorize todos os detalhes, todas as subidas e descidas, as pedras, as curvas, o silêncio, a brisa e as montanhas deste seu caminho, para que você possa dizer de cabeça erguida, no futuro: Cresci Chorei Sorri Caí Levantei Aprendi Amei Fui Amado Perdi Venci Vivi E, principalmente, sou uma pessoa feliz!




quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Os dias


Os dias


A janela nada me diz,
Nada de novo me conta
A porta lembra-me somente o passar dos dias…

Caminho as mesmas calçadas,
O mesmo vento,
As mesmas folhas,
As pessoas nunca são as mesmas.

O frio, só esse é mais seco e gelado.

Só a música me acompanha.

Nos devaneios, nos passos, no passar.

Só ela permanece, fiel e segura.

Tudo muda, os pensares,
Os comportamentos,
Volátil petrificação de tudo.

Corro as cortinas dos meus olhos,
Fecho o casaco e seguro o cabelo.

O vento, sopra cada vez mais forte,
Eu estou cada vez mais leve…

Infiltra-se o silêncio…

Estou cada vez mais longe de tudo de todos.



Freyja

CARUMA


CARUMA




Nem contigo

nem sem ti

completamente paralisado

assim me quedo

distante

por aqui



Imaginei mares e nuvens

onde se reflectia o teu olhar

a tua morna respiração

o brilho do teu pescoço sem colar

vi na areia o sinal dos teus passos, pés,

únicos, não há iguais aos teus

e em vão procurei ao lado pelos meus

na praia, de lés-a-lés



Sem espanto descubro!...


Nunca pertenci à visão que criei

de longe observei a minha própria ausência

orlada de espuma

sal

areia

impotência



Estavas em toda a parte:

No norte duro

no sul do sol

na obra de arte

no leste, de onde vieste

no vale escuro

no poente carmim

no princípio e no fim.



Por toda a parte e em nenhuma...


Na copa dos pinheiros

nas borboletas

no chão de caruma...


E a espuma da memória

que eu retive de ti em mim

desaparecia no granulado de um filme mudo

em que todos os fotogramas gritavam a palavra “FIM”




Francisco Quintas

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Não me deixes!


Não me deixes!



Debruçada nas águas dum regato
A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava:
"Ai, não me deixes, não!

"Comigo fica ou leva-me contigo
"Dos mares à amplidão;
"Límpido ou turvo, te amarei constante;
"Mas não me deixes, não!"

E a corrente passava; novas águas
Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
"Ai, não me deixes, não!"

E das águas que fogem incessantes
À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
"Ai, não me deixes, não!"

Por fim desfalecida e a cor murchada,
Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não.

A corrente impiedosa a flor enleia,
Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
"Não me deixaste, não!"



Gonçalves Dias

Meus Amores


Meus Amores



Meus amores são lindos, cor da noite
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa creoula, ou Tétis negra
Tem por olhos dois astros cintilantes.

Em rubentes granadas embutidas
Tem por dentes as pérolas mimosas,
Gotas de orvalho que o inverno gela
Nas breves pétalas de carmínea rosa.

Os braços torneados que alucinam,
Quando os move perluxa com langor.

A boca é roxo lírio abrindo a medo,
Dos lábios se distila o grato olor.

O colo de veludo Vênus bela
Trocara pelo seu, de inveja morta;
Da cintura nos quebros há luxúria
Que a filha de Cineras não suporta.

A cabeça envolvida em núbia trunfa,
Os seios são dois globos a saltar;
A voz traduz lascívia que arrebata,
É coisa de sentir, não de contar.

Quando a brisa veloz, por entre anáguas
Espaneja as cambraias escondidas,
Deixando ver aos olhos cobiçosos
As lisas pernas de ébano luzidas.

Santo embora, o mortal que a encontra pára;
Da cabeça lhe foge o bento siso;
Nervosa comoção as bragas rompe-lhe,
E fica como Adão no Paraíso.

Meus amores são lindos, cor da noite,
Recamada de estrelas rutilantes;
Tão formosa creoula, ou Tétis negra,
Tem por olhos dois astros cintilantes.

Ao ver no chão tocar seus pés mimosos,
Calçando de cetim alvas chinelas,
Quisera ser a terra em que ela pisa,
Torná-las em colher, comer com elas.

São minguados os séculos para amá-la,
De gigante a estrutura não bastara,
De Marte o coração, alma de Jove,
Que um seu lascivo olhar tudo prostrara.

Se a sorte caprichosa em vento, ao menos,
Me quisesse tornar, depois de morto;
Em bojuda fragata o corpo dela,
As saias em velame, a tumba em porto,

Como os Euros, zunindo dentre os mastros,
Eu quisera açoitar-lhe o pavilhão;
O velacho bolsar, bramir na proa,
Pela popa rojar, feito em tufão.

Dar cultos à beleza, amor aos peitos,
Sem vida que transponha a eternidade,
Bem que mostra que a sandice estava em voga
Quando Uranus gerou a humanidade.

Mas já que o fato iníquo não consente,
Que amor, além da campa, faça vasa,
Ornemos de Cupido as santas aras,
Tu feita em fogareiro, eu feito em brasa.




Luiz Gama

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Identidade


Identidade


Matei a lua e o luar difuso.

Quero os versos de ferro e de cimento.

E em vez de rimas, uso
As consonâncias que ha no sofrimento.

Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo o coração que se debate aflito.

E luta como sabe e como pode:
Da beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
Tem maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.



Miguel Torga

domingo, 13 de novembro de 2011

Não tem volta


Não tem volta



Se você vai por muito tempo

você nunca volta.

Você retorna,
Você contorna
mas não tem volta
a estrada te sopra pro alto
pra outro lado
enquanto
aquele tempo
vai mudando.


Aí, de quando
em quando você lembra
aquele beijo,
aquele medo
mas você sabe
que tudo ficou antigo
e você não volta
nem com escolta
nem amarrado
porque o passado
já te perdeu
e o perigo
muda mesmo de endereço.

Não existe pretexto.

O dia mudou
o carteiro não veio
o principio é o meio
e você retorna
mas não tem volta.

Zélia Duncan

A Bela Encantada



A Bela Encantada


Mancebo imprudente, leviano mortal,
Ausenta-te, foge, se não, ai de ti!
Não fiques num sítio, qu'é sítio fatal,
Não pares aqui.

Se a visses...
Tão bela!... de branco vestida,
Coas negras madeixas no colo a ondear,
Tão só, qual princesa de um trono abatida,
Cismando ao luar...

Se a visses... tão branca, da lua ao palor
Uma harpa sonora então dedilhar,
E à margem do lago ternuras de amor
Essa harpa entornar...

Se então tu a visses, tão branca e tão bela!
Com a harpa inclinada no seio ao revés,
Vertendo harmonias, com a lua sobre ela,
E o lago a seus pés...

Se a visses...
Não vejas, incauto mortal;
Ah! foge!
Ind'é tempo; não pares aqui;
Não fiques num sítio que é sítio fatal;
Se não, ai de ti!...

Não vejas a bela, que em vê-la há perigo;
Estila dos lábios amávio traidor;
Não vejas!
Se a vires.
Eu sei o que digo!...
Tu morres de amor!



Joaquim Manuel de Macedo

PERFUMES




PERFUMES


PODEROSA
MULHER
RICA EM ODORES...

TE CHEIRO
TEU CHEIRO...

TUA FLOR.

FECHADA PERFUMAS
ABERTA PERFUMES.

NO CLARO
OU NO ESCURO
É TUA LUZ QUE PERSIGO.

E DESCANSO
ENTRE AS DUAS...

FELIZ ENTRE AS SUAS
ME FARTO...


Marc Santini




sábado, 1 de janeiro de 2011

Réveillon



Réveillon


Réveillon

A noite feita de copos
encontrou-a virgem pura
distribuindo uvas
gritando imprudente:

Feliz Ano Novo!

Depois desejou uma nuvem
caminhou na esteira da lua
ouviu o canto da pedra
bebeu o hálito do orvalho
chorou o anil do branco
e ao desprender-se da janela
contraiu núpcias com o ano que findou.

Feliz Ano Novo!


Beatriz Alcântara

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Desejo primeiro


Desejo primeiro


Desejo primeiro

Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.

E que se não for, seja breve em esquecer.

E que esquecendo, não guarde mágoa.

Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.

Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconseqüentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.

E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.

Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.

E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.

Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.

E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.

Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.

Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.

Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
É preciso deixar que eles escorram por entre nós.

Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.

Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.

Desejo que você descubra ,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.

Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você sesentirá bem por nada.

Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.

Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.

Eque pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga `Isso é meu`,
Só para que fique bem claro quem é o dono dequem.

Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar esofrer sem se culpar.

Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.

E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.



Sérgio Jockyman

Coisa Amar



Coisa Amar


Coisa Amar

Contar-te longamente
as perigosas coisas do mar.

Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.

Contar-te longamente longamente.

Amor ardente.

Amor ardente.

E mar.

Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.

E mar.

Amar:

As coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar.

E mar.

Contar-te longamente como doi
desembarcar nas ilhas misteriosas.

Contar-te o mar
ardente e o verbo amar.

E longamente
as coisas perigosas.



Manuel Alegre

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Até Quando te Amarei


Até Quando te Amarei


Até quando se ouvir a voz do vento
E a vontade de ser e de existir

Nem de leve me turve o sobrevir
De teu nome na paz do pensamento.

Até quando, feliz, puder seguir
Em busca de teu vulto e o juramento

Ardente de te amar for o momento
Mais doce a renovar e a repetir.

Cá me encontro, Senhora, a te louvar.

Assim, com muito agrado, seguirei
A beleza, que tens, a celebrar.

Porque se ao fim da tarde já cheguei,
Sentindo que meus dias vão findar,
Jovem só por te amar ainda serei.



Artur Eduardo Benevides

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Afago


Afago



Afago

Dê-me seu colo, afague minha solidão
Abraça-me e me olhe com muita paixão...

Encoste sua boca na minha e busque
meus desejos cansados de tanta saudade...

Murmure palavras doces ao meu ouvido
E deixe que se misture aos nossos gemidos...

Encaixe forte suas mãos nas minhas
Deixe que tudo nos envolva nesta sintonia...



Lete Dias

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Solidão



Solidão



Solidão

A noite chega e a solidão se faz presente
O silêncio, um bem enorme a vida da gente

Saio à rua a caminhar com minha alma nua
Sem vestir a tristeza vou ao encontro da lua.

Olhar as estrelas e o lindo negro véu da noite
Sentir aromas doces e inebriante das flores

E ouvir gemidos frutos de alguns amores
Compartilhadas entre Eles palavras doces .

E assim vou libertando o meu pranto
Aliviando do peito todo o desencanto

Depois voltar com minha alma lavada
E deixar a solidão seguir sua estrada .


Lete Dias

domingo, 26 de dezembro de 2010

No delicado rosto entre suas mãos


No delicado rosto entre suas mãos


No delicado rosto entre suas mãos

Ele leu nos traços melancólicos toda uma vida
De profunda solidão, de pouco amor e...

De tanto desespero.
E ela precisava se afastar...

Ou seria arrastada por desejos proibidos
Nunca ninguem a atraia daquela maneira
Uma dor profunda se apossou dela,
tantos prazeres perdidos...

Mas fazer o que?

Já sabia a resposta?

Sentia no fundo do seu íntimo e temia
Ouvir o eco de suas carências
De seus anseios proibidos e impossíveis
De serem realizados...

Afastou-se...



Lete Dias

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Natal


Natal



Natal

Um anjo imaginado,
Um anjo diabético, atual,
Ergueu a mão e disse:

É noite de Natal,
Paz à imaginação!

E todo o ritual
Que antecede o milagre habitual
Perdeu a exaltação.

Em vez de excelsos hinos de confiança
No mistério divino,
E de mirra, e de incenso e ouro
Derramados
No presépio vazio,
Duas perguntas brancas, regeladas.

Como a neve que cai,
E breve como o vento
Que entra por uma fresta, quizilento,
Redemoinha e sai:

A volta da lareira
Quantas almas se aquecem
Fraternalmente?

Quantas desejam que o Menino venha
Ouvir humanamente
O lancinante crepitar da lenha?



Miguel Torga

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Fronteira


Fronteira


Fronteira

Por sobre a dobra viva
do teu colo caminha e desliza
meu furor cadenciado,
frenesi ofegante de sussurros
fragmentados,
jactando-se em magma
de um prazer escandinavo
frente à nobreza daqueles
países baixos.

Linha divisória entre e
a realidade o imaginário,
curvo-me à onipresença
dos teus seios fartos,
enquanto procuro o fôlego
disperso, enredado,
preso em teus lábios
silenciosos.

A visão do paraíso
escancara meu sorriso
devasso, efêmero
duração eterna de segundos
preciosos.



Flávio Villa-Lobos

domingo, 5 de dezembro de 2010

Sombras da Lua



Sombras da Lua



Sombras da Lua
Vou voar com o ar que me dás
Terna liberdade de sentir o som do mundo

E lá do alto tudo parece igual
E lá do alto tudo parece efémero

A tempestade já perdeu o preconceito
O luto amargo de olhares desnudados

Perpétuos silêncios que se escondem no peito
Aprisionadas vozes que permanecem caladas

Solto as amarras que me agarra
Lê-o o tal livro de duas folhas em branco

Olho-te nos olhos feitos de espirais
E as sombras da lua é que encanta os mortais




José Tavares

Amor é fogo que arde sem se ver



Amor é fogo que arde sem se ver



Amor é fogo que arde sem se ver;

É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;

É dor que desatina sem doer;
É um não querer mais que bem querer;

É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;

É cuidar que se ganha em se perder;
É querer estar preso por vontade;

É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,

Se tão contrário a si é o mesmo Amor?



Luís de Camões

sábado, 4 de dezembro de 2010

Inércia



Inércia


Inércia

Como onda que se tivesse
desfeito sem mais regressar
à maré olho-me…

Estendida na praia em que me desfiz

Nem um desejo macula a limpidez
do vazio sinto-me movimento
mecânico que algo anima,
mas será que vibra?

Não sei porque se desfaz a gente
e se cansa em nós a vida
quando o sol está a pino
e é pleno Verão ainda...



Angela Santos

Cume


Cume


Cume

E tudo o que eu quiser posso!

Fronteiras a mim cabe
derrubá-las…

Rasgo um voo que me leva
a rasar a tempestade,
de mim parto a mim regresso
não sei onde está o fim
da ousadia que teço..

Sem grilhões o voo é plano,
olho os escombros de cima
o lance ousado deu-me asas
para sobrevoar o abismo..

Do voo raso ensaio
o voo que a águia lança
e do cimo da montanha,
que passo a passo é subida,
vejo quão longe se alcança
quão fundo e alto se atinge
o fundo de onde viemos
o cume que pressentimos.



Angela Santos

Inscrição



Inscrição



Inscrição

Por
todos os sinais
por desvendar
gestos, palavras, caminhos
pelo obscuro ventre da verdade
por tudo o que somos,
ou ainda não…

Por todas as noites
grávidas de luzes subtis,
auroras, alvoradas
ansiadas…

Por aquilo que faremos,
caminhos reinventados,
por aquilo que ainda é sonho
e é urgente cumprir…

Do fundo em nós se erguerão
gritos rasgando silêncios
lanças guerreiras
de encontro ao que nega
a ousadia a vida,
o devir, o crer.

Transfigurados os olhos,
volta-se à raiz de tudo
e a singular forma Humana,
no âmago do ser inscrita,
emergirá lá do fundo
noutra imagem reflectida.



Angela Santos

Poema


Poema


Poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo

Sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura

Tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu

Num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco


Mário Cesariny

Canto I


Canto I



Canto I

Eu parto da palavra
ao parto dos amantes:

Bem assim frente a frente
se inauguram os sons
aos olhos da surpresa:

E viu para falar
ouviu para dizer
tanta beleza agora
se vai a solidão
na maciez da pele
na relva dos cabelos
na fenda diferente.

E ele a chamou mulher
e sentiu o seu cheiro
e porque era de espanto
foi deitar-se com ela
no verde da campina
descobrindo seus poros
com o tato da língua
numa conversa muda
mas cheia de arrepios
reinventando colinas
na planície da pele.

No lastro das carícias
pesa o rumor dos corpos
com seu barulho de água
no suor represado.

E a vida neste instante
não era a mesma vida:
um tempero de febre
ardia na mudança.

No repouso dos corpos
no embalo da fadiga
vinha a fala alumbrada
palpando a geografia
guiada nas carícias
de dedos alpinistas.

E eles se revezavam
no batismo do corpo
na ablução das salivas
purificando as partes
no sal de suas águas.

A lua em seu modelo
nessas quatro mudanças
serviu para dar nome
aos dois quartos crescentes
bandas de níveas nádegas
com suas duas curvas
claras e tão macias;
colinas e montanhas
desenham os dois seios
com a cor do alabastro,
e a relva dos pentelhos
o manto da vagina
raízes de alfazema;
a boca uma romã;
estrelas são os olhos;
os búzios são ouvidos,
e o nariz promontório;
a forma mais ereta
obelisco de rocha
forjado pelos ventoso.

Nomes adocicados
alfenim de momentos
rebuçados na língua
e o tempo derretendo
no espaço dos sentidos
nas bocas de um só gozo.



Anibal Beça

Canto II


Canto II



Canto II

Tudo era descoberta
no abrir dessas palavras.

E a viagem seguia
construindo-se andaime
de leve arquitetura
nas ogivas das bocas
dos dois que se encantavam
nesse jogo onomástico.

E a mulher que era voz
ainda adormecida
balbuciou nomeando
esse homem fricativo
amado meu amado.

Então ele se soube
de pedra amolecida
mas senhor da tarefa.

E olhou-a como nunca
olhara em sua volta:

A íris revelando
o seu contentamento
no semblante de calma
na viva descoberta
do fogo prometido.

Havia agora como
repartir as centelhas
dos olhos revirados.

Apenas construir
um solo de pegadas
no sopro de ocarina
de música tão breve,
que o passo é de nuvens.

Saber-se passageiro
ao lado da parceira
no destino de andar
de ver para fincar
as flechas andarilhas
as palavras certeiras
no chão do transitório.

Então para alargar
o chão dessa morada
e para contentar
os impulsos dos pés
a vontade liberta
de ter aonde ir
no vão dos sonhos soltos
espanando a rotina
dessas favas do tédio
só havia a distância
desse mar dos mistérios
O mar das descobertas:

Ó Thálassa, ó Thálassa!

O mar da poesia
Esse mar do impossível.




Anibal Beça

Canto III


Canto III



Canto III

O dorso que se curva elegante
desenha na memória a leve dança
da bailarina grácil,
celebrante de rito sedutor,
que me balança.

Toda vez que me vejo tão distante,
torcendo meus desejos na lembrança
dos momentos vividos, no constante
aprendizado vasto da mudança.

Posto que a vida corre em curtas curvas,
transitória paisagem, vário atalho
que vai modificando linhas turvas.

Mutante claridade me agasalha:
no casulo do gozo de sussurros
sei-me bicho saído dessa malha.



Anibal Beça

Canto IV


Canto IV



Canto IV

Meus olhos vão seguindo incendiados
a chama da leveza nesta dança.

Que mostra velho sonho acalentado
de ver a bailarina que me alcança
os sentidos em febre, inebriados,
cativos do delírio e dessa trança.

É sonho, eu sei.

E chega enevoado
na mantilha macia da lembrança:

O palco antigo, as luzes da ribalta,
renascença da graça do seu corpo,
balé de sedução, mar que me falta

Para o mergulho calmo de amante,
que se sabe maduro de esperar
essa viva paixão e seu levante.



Anibal Beça

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Faz-se luz pelo processo



Faz-se luz pelo processo


Faz-se luz pelo processo

Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras.

Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva
vida própria não dum e
doutro lado da luz mas
do próprio seio dela
intensamente amantes.

Loucamente amadas
e espalham pelo chão
braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo
bico nos olhos do homem.

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca



Mário Cesariny

Faz-me o favor


Faz-me o favor



Faz-me o favor

Faz-me o favor de não
dizer absolutamente nada!

Supor o que dirá
Tua boca velada
É ouvir-te já.

É ouvir-te melhor
Do que o dirias.

O que és não vem à flor
Das caras e dos dias.

Tu és melhor muito melhor!

Do que tu.

Não digas nada.

Sê.

Alma do corpo nu
Que do espelho se vê.

Mário Cesariny




Mário Cesariny

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A Bem Amada no Mar



A Bem Amada no Mar



A Bem Amada no Mar

Alva gaivota hesitante
a bem-amada insinua
ao dorso de um mar sem ilhas
seu corpo de garça nua.

Suas mãos voam como pássaros
de fina garra escarlata.

No búzio de sua orelha
ressoam segredos de água.

A bem-amada se esconde
atrás de fortins de espuma.

De cem espelhos truncados
sobem reflexos de lua,

E o mar, como um polvo, aperta
sua cintura delgada.

Já as estrelas desfalecem
nos olhos da bem-amada.

Já os seus seios afloram
como "ice-bergs" na bruma.

E um batel de algas negras
entre suas coxa flutua...

Já os seus cabelos se soltam
como sargaços errantes.

Já em suas mãos embaraça
o galopar de hipocampos.

E quando morrer a lua
e o sol afagar seu rosto
as andorinhas do mar
virão noivar em seu corpo.



Domingos Carvalho da Silva

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Ainda os lençóis


Ainda os lençóis



Lençóis abaixo

Lençóis acima
Trocentas diversões

Meu traço risca teu
espaço em voz e direção

Meu corpo encurva
e te submete a mais
uma exploração...

Lençóis abaixo
Lençóis acima

Perco o diapasão
Há um afinar de
corpos pelo ouvido

Quero te ouvir sempre
em movimentos entônicos
de orgasmos

Lençóis abaixo
Lençóis acima

Caio de quatro
Percebo no ato
o penetrar manso

Estou alucinado
pelos movimentos sutis
de descobertas

Lençóis abaixo e acima,
estou em ti...

Como voraz os pés
da cama...

E a teus pés eu
declamo harmonias loucas
perdidas e lúcidas
já sem lençóis,
sanidade
ou sensatez.



Djalma Filho

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Pastor de Hienas


O Pastor de Hienas


O Pastor de Hienas

Madrugada madrugada
fugirei de madrugada
com um sol em cada nuvem
e uma lua em cada estrada.

Levarei nas mãos a grade
da cela em que encerrei.

Fugirei de madrugada
contigo ou outra qualquer
pra violar os caminhos
que pelo mundo se perdem.

Fugirei de madrugada
entre embarcações do porto:

os pulsos cheios de sangue,
veias rotas pelo corpo.

Fugirei do teu abraço.

Fugirei do teu castigo.

Abraçarei as hienas.

Queimarei medas de trigo.

Serei fantasma nos campos.

Morto nas encruzilhadas.

Só os corvos hão de encontrar
o meu corpo, que abraçavas...

Fugirei de madrugada
como um ciclone inclemente,
beijando o ventre das águas,
como beijava o teu ventre.

Madrugada madrugada
Esponja que apaga estrelas.

Fugirei de madrugada
estilhaçando as algemas.

Irei como um incendiário
com o olhar em labaredas
e a mão erguida agitando
o facho de teus cabelos.



Domingos Carvalho da Silva

A noite do meu bem




A noite do meu bem



A noite do meu bem

Hoje eu quero a rosa mais linda que houver
E a primeira estrela que vier

Para enfeitar a noite do meu bem
Hoje eu quero a paz de criança dormindo

E o abandono das flores se abrindo
Para enfeitar a noite do meu bem

Quero a alegria de um barco voltando
Quero a ternura de mãos se encontrando

Para enfeitar a noite do meu bem

Ah!

Eu quero o amor mais profundo
Eu quero toda a beleza do mundo

Para enfeitar a noite do meu bem

Ah!

Como este bem demorou a chegar
Eu já nem sei se terei no olhar

Toda a ternura que eu quero lhe dar.



Dolores Duran

Entre lençóis


Entre lençóis


Entre lençóis

Envoltos pela névoa de linho
os amantes se olham
indescobertos...

Envoltos por sins e temores
os amantes se tocam
cautelosamente...

Envoltos por olhos ardentes...
os amantes se desejam
misteriosamente...

Envoltos...

No quarto fechado
há um não sobrar de
espaço para dois.

As palavras sussurram delicadamente
prazeres inconfessáveis e não ditos.

Mãos espalmadas em busca de espaço
desafiando as leis da física...

Pernas,
ora trançadas ora retesadas...

Querendo quebrar todos os limites
Bocas em beijos,
em cada milímetro...

Engolindo toda a possível resistência

Entre lençóis,
os amantes se esquecem
eternamente do tempo ...

Para quê tempo?

Se,
entre lençóis,
eles
vivem tão intensamente?...

E...

Bem cá entre nós
Para quê mais os lençóis?...



Djalma Filho

Eclipse


Eclipse



Eclipse

Vem
menina vadia
te darei o meu dia
te farei sol nascer

Vem
menina moleca
te farei uma festa
te darei meu prazer

Vem
menina dengosa
te encantarei formosa
te enfeitarei com meu ser

Vem em ti
todas as meninas carentes
todas as mulheres santas
todos os amores proibidos
todas amantes desvairadas

Dispa
em definitivo teus pudores
deflore toda tua nudez
que arde...

Agora afoita
em avalanche de néctar

Abrace-me
sem culpas nem escrúpulos
penetre nessa loucura
que arde...

Agora ereto
vermelho a te querer

Fique-me
em eclipse...

Em
superposições de sóis
querendo e ardendo
definitivamente nós!!!



Djalma Filho

Artista


Artista



Artista

Que graças pões,
Maria,
e que cuidado
No arranjo e na feitura do teu ninho!

Eu nunca vi um quarto de noivado
Feito com arte tal,
com tal carinho...

Nas fronhas lindas e no cortinado,
Na alvura dos lençóis de puro linho,
Transparece o teu gosto requintado.

Benditas sejam tuas mãos de arminho!

No teu leito há talento, eu te asseguro,
E ninguém poderia,
amor,
supô-lo:

Em tão pequena coisa,
tanto apuro...

E eu penso vendo o teu bom gosto e zelo,
Se tal arte tu mostras em compô-lo
Que perícia terás em revolvê-lo!...




Djalma Andrade

Em casa sozinha



Em casa sozinha



Em casa sozinha...

Em casa sozinha
para matar meu desejo
leio poesias
não beijo

Me masturbo
e me contorço
leio poesias
não ouço
a voz
onda da pele clara
que aflora
sobre meus ossos

Em casa
entre coqueiros e arcos
ouço o desejo e passo
pelo fim do meu desejo
portas adentro atravesso
prendo sonhos entre paredes
minhas mãos prendem nos versos
os meus desejos inda verdes...



Diva Cunha

Talvez


Talvez



Talvez

Não exista o Amor

Talvez
exista somente
o ódio e aquilo
que chamamos de Amor é somente odiar



Dieter Roos

Um Novo Dia


Um Novo Dia


Um Novo Dia

A brisa que te trouxe
A mesma que nos envolveu

Junto à lua
e às estrelas foi testemunha
Do maior amor que aconteceu...

Diante do céu
me prometeu o paraíso
Nem era preciso...

Eu tinha você
E esse era meu maior prazer...

Mas a brisa
transformou-se em ventania
Levou você e toda minha alegria.

Como náufrago,
à deriva das dores da vida,
Assim fiquei....

Me abandonei
Afundava em mágoas,
dores e recordação...

Mas Deus me pegou pela mão
Me fez reviver...

Hoje,
contemplando o fim da tempestade,
Já não recolho os destroços como antes.

Levanto minha cabeça e sigo em frente...

Se tenho que tirar uma lição,
fica esta:

O vento só leva,
quem se deixa levar...



Rose Felliciano

Reivindicação da arte


Reivindicação da arte



Reivindicação da arte

A boa,
que ao seu amor nada nega
E se lhe entrega com antecipação.

Saiba:

Que não é boa vontade não
Mas talento,
o que ele deseja na esfrega.

Mesmo se à velocidade do som
Do sou-tua dela à cópula chega

Não é pressa que o botão dele carrega
Quando às bolas seminais dá vazão.

Se é o amor que primeiro atiça o fogo
Precisa ela depois,
para Inverno amparado
De ser dona ainda de um traseiro dotado.

De facto,
mais que o fervor no olhar
Também faz falta um truque há que usar:

Coxas soberbas, em soberbo jogo.



Bertold Brecht

Hábitos de Amar


Hábitos de Amar



Hábitos de Amar

Não é exacto que o prazer só perdura.

Muita vez vivido, cresce ainda mais.

Repetir as mil versões prévias, iguais
É aquilo que a nossa atracção segura:

O frémito do teu traseiro há muito
A pedi-las!

Oh, a tua carne é ardil!

E a segunda é, que traz venturas mil,
Que a tua voz presa exija o desfruto!

Esse abrir de joelhos!

Esse deixar-se coitar!

E o tremer, que à minha carne sinal solta
Que saciada a ânsia, logo te volta!

Esse serpear lasso!
As mãos a buscar me.

Tua a sorrir!

Ai,
vezes que se faça:

Não fossem já tantas, não tinha tanta graça!



Bertold Brecht

Delírio


Delírio


Delírio

Na penumbra,
uma indefinível alegoria
salta na trêmula paisagem
e principia uma estranha
dança noturna.

Passos silenciosos
movem-se elásticos
em meio à névoa úmida
vôos espetaculares
sem música.

Gestos grandiosos,
o corpo envolto em mímica
revela o deslumbramento
solitário e, ao mesmo tempo,
mágico e absoluto.

Instante único,
encontro de almas gêmeas,
o toque ímpar no extraordinário...

Fuga da realidade em pleno sol da meia noite.



Flávio Villa-Lobos

domingo, 28 de novembro de 2010

Legados


Legados



Legados

Velejo por entre correntes
marítimas que o navio
do destino faz balançar,
arrastando meu sonho em torvelinho,
rumo às águas profundas do imensurável mar.

As ondas eram pequenas,
pequeno era meu desejo de amar.

Quando me libertei da timidez
era tarde, tarde demais.

As ondas viraram vagas, vagalhões
e afundaram meu barco de papel.

As estrelas da anunciação
que brilhavam como sóis
no mapa do céu
apagaram-se todas.

Levaram com elas
o caminho do sonho acalentado
inútil saber se sobreviveu.

Restou a figura do vento bravo
ventania carregando ao léu
minhas lágrimas velozes,
deixando-me apenas
um olhar vago,
eternamente escravo
do que não aconteceu.



Flávio Villa-Lobos

Separação




Separação


Separação

Que estranho sentimento é este
que nos arrebata ferozmente
sangria aberta
em postas de sangue virtual.

Vergalhando a alma alquebrada,
chibata onipresente
do invisível feitor?

A dor que nos une
é a mesma do amor
quando se presume
o golpe final.



Flávio Villa-Lobos

Prometeu


Prometeu


Prometeu

Embaciado o espelho
se quebra a dúvida

De não te vir a ter
Não acordes Amor

Nesse palácio episcopal
Causa de tua morte natural

Vem comigo para a montanha
Descobrir um pecado antigo

Do Humano mamífero
Conhecer a felicidade suprema

Sem sombra de sonífero
Amar o que se ama

Sem pretender pensar
O que está certo ou errado

De modo a que ninguém

Nem Deus

Possa evitar de se que seja Amado





Teresa Brandão

Te Amo


Te Amo



Te Amo

Perdi a viagem mas não deixei de ir ao seu encontro
Assim encurto a distância que existe entre nós

Nem mesmo a subida me faz desistir
Você é o meu sonho e eu vou realiza-lo

Tenha paciência falta só mais um pouco
Não me troque por mais ninguém

Vai ver que valerá a pena
Eu estou amando-lhe mesmo não estando aí

Olhe nas estrelas e verá que eu estou próximo
Perdi a viagem mas estou a caminhar na sua direcção

Envio-lhe o meu pensamento para não se sentir só
Espere mais um pouco pois já estou muito perto amor

Não se sinta só pois estou a caminhar na sua direcção
Já falta pouco para selarmos os nossos lábios

Em movimentos perpétuos
Você é o meu sonho e eu vou realiza-lo

Eu estou amando-lhe mesmo não estando aí




José Tavares

Volta Atrás




Volta Atrás



Volta Atrás

Sinto uma dor no peito,
quando eu penso em ti,
o olhar e esse teu jeito,
nunca mais eu me esqueci.


Quero voltar atrás,
mesmo sabendo que tu,
não és capaz sei que assim,
não posso viver pôr um fim
à minha vida,
para sempre te esquecer.

Na parede mais pequena,
que eu tenho no meu quarto,
fiz dela uma tela,
e pintei o teu retrato,

não me canso de o olhar,
tua beleza sem fim,
passo horas a pensar,
se tu voltarás para mim.

Sei que não passa de um sonho,
pois é pura ilusão,
alimento minha esperança,
enganando o meu coração.



José Tavares

Sobressalto


Sobressalto


Sobressalto

Há de acontecer repentinamente
uma suburbana paixão.

Avassaladora e tênue,
acordará corações ingênuos
rasgando-lhes o peito adormecido
igual a fúria voraz de um raio caindo
intrépido e certeiro
no ventre da terra incandescente.

Surgirá por todos os poros
a invencível emoção adolescente.

Assumirá com toda pompa pensamentos,
palavras e obras.

Tempos de recolhimento
serão banidos vigorosamente
do vil mosteiro insensato
que perambula dentro dos inocentes.

Assustará num primeiro momento
essa força inesgotável de sedução.

Por fim, exultar-se-á com
a descoberta valiosa e súbita:

Sim,
ainda vive e respira em cada âmago
aquele impetuoso amante febril,
vibrando igual a loucura única
que aflora em todo amor juvenil.



Flávio Villa-Lobos

Meu chocolate


Meu chocolate


Meu chocolate

Ao leite ou derretido

Com passas ou crocante
Puro ou pervertido

Com recheio
É excitante
Eu saboreio

Te mordo
E meu corpo todo
Lambuzada
Chocolate

Fina arte
Transformada
Misturada
Ao sabor supremo

Meu chocolate
Meu veneno
Você é arte
Só você extermina

Minha melancolia

Você,
serotonina

Que me vicia...



Liz Christine

À Espreita


À Espreita



À Espreita

Inventar uma lua cheia
que ilumine teu caminho
parece ser minha saga,
meu inevitável destino.

Aprisionar a furiosa ventania
que ameaça teus cabelos
parece ser minha magia,
minha força na ponta dos dedos.

Dobrar a copa das árvores
e na tempestade
proteger-te das águas
parece ser minha sina,
meu cuidado extremo.

Impedir o sol forte
de banhar-te
a pele maravilhosa
parece ser minha derradeira
metamorfose:
transmutar-me em espessa
nuvem negra
e filtrar os raios
do ardente mormaço.

Parece ser minha ventura
acompanhar-te,
viver à sombra de teus passos
e quando exausta chegares
ao fim da longa e inútil
jornada,
de braços abertos
esperar-te.



Flávio Villa-Lobos
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